'O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo'
Alberto Caeiro

Sentidos

sexta-feira, 12 de março de 2010


VOLTAR AO PÂNTANO

O coqueiro em Lisboa…

Antunes Ferreira
Acabou-se
o que era doce. E picante. Sair do Éden para regressar a este pseudo Inferno carregado de Inverno é o exemplo mais evidente do suicida militante. Evidentemente, eu sou. E pecador me confesso, sem esperança alguma de perdão. Muito menos aos pés de um qualquer senhor, como cantava e hoje arranha o Calvário. E disso não haja dúvidas: este mísero País é um calvário.

Aqui estou, contrito e envergonhado por não ter sido capaz de dizer sim. Ao desejo de ficar muito mais tempo em Goa. Corrijo: na Índia. Mas, as saudades da minha gente já eram muitas. Voltei. Agora, as saudades da água de coco, do Mandovi, do Ganesh, do Big Foot, dos cruzeiros e das gentes – que também são minhas – são tantas que fazem doer os mais empedernidos. A mim, fazem.

Porem, penitência assumida, vou (por dias tão seguidos quanto me der na gana) continuar com O Coqueiro da Esquina. Ainda que aqui em Lisboa. Que me perdoem os meus queridos colaboradores: só entram quando houver uma nesguinha entre as paridelas cá do rapaz. E, como sabem, prometo e cumpro. Venham os textos e publicá-los-ei com a periodicidade e a regularidade possíveis. Desde já aqui deixo o meu muito obrigado antecipado.

Entrementes, vou dar respostas aos cumentários, com o, que muito boa gente quis fazer, mesmo durante esta pequena ausência de apenas 52 dias. Não prometo que o faça em data determinada, desculpem-me os que os enviaram. Mas – não tenho tempo para mais. A tê-lo, repito o que tenho vindo a dizer: ficava lá, repimpado. Juro.

Este País é, desde há tempo, um antro da suspeita e da inquirição. E, até, da inquisição. Os agentes investigadores, os denunciantes, os corruptos, os ladrões e quejandos estão como o peixe na água. Ninguém dá um passo, um só, que não seja, logo, seguido. Os criminosos estão-se nas tintas. Os cidadãos honestos (que os há…) receiam – mesmo sem razão alguma - pela lama que lhes atiram, pela vergonha que persistem em ter. Telefonar é um verdadeiro perigo. As escutas são o medo instalado. Dar a um aniversariante os parabéns pelo telemóvel é manigância de teor político. O desmentido cada vez vale menos. Ou mesmo quase nada.

Uma mentira de tantas vezes repetida, como se sabe, degenera em «verdade». E por mais que as pessoas neguem e exibam provas de que não agiram maldosamente ou fora da lei, no que quer que seja, as dúvidas e as acusações persistem. A honra está em coma. Boatos pululam. As insinuações generalizam-se. As denúncias são quotidianas.

E, há, ainda, a crise. A famigerada crise económica, financeira, orçamental. A moral. E o espectro da recessão, da insolvência, quiçá mesmo da falência. Bem vistas as coisas, a crise é fundamentalmente da consciência. O salve-se quem puder faz lei. E as leis fazem-se para os que puderem se safarem.

Deixem-me que vos confesse: já quase não vejo telejornais & correlativos, não leio jornais, não ouço rádios que repercutem e aumentam os casos mais triviais, transformando-os em tsunamis quotidianos. Já não aturo pretensos debates políticos e/ou similares. Estou-me nas tintas para os politiqueiros que se multiplicam de forma exponencial. Serei, quem sabe, um pessimista congénito? Um desesperado praticante? Não sei. Continuo a acreditar firmemente na Liberdade e na Democracia. Resta-me isso. Concluo: estou farto.

Voltar a este pântano é muito difícil.

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